quinta-feira, 22 de julho de 2010

Pesca de atum em mancha gera revolta nos pequenos portos

O subsecretário regional das Pescas, Marcelo Pamplona, convocou, com carácter de urgência, para as 14 horas de hoje, vários armadores de barcos de boca aberta do Sul de São Miguel que, por esta altura do ano, se dedicam à pesca do atum. O objectivo é conter o clima de revolta que se instalou nos pequenos portos de pesca de São Miguel e Santa Maria contra a pesca do atum em mancha que está a ser efectuada pelas traineiras. Afinal, os ‘very lights’ lançados contra a traineira ‘Flor do Pico’, junto à ilha de Santa Maria, são apenas a ponta do iceberg.


O mestre da traineira ‘Flor do Pico’, João Eusébio Sousa, disse ontem ao ‘Correio dos Açores’ que “esteve em perigo” quando, na noite de domingo para segunda-feira, desconhecidos lançaram 10 a 12 ‘very light’ para o fundo do mar com o objectivo de afugentar a mancha de atum que se encontra há vários dias em redor de um grupo de quatro embarcações.

Um dos ‘very-lights’ foi enviado em direcção de Mestre João Sousa quando este procurou identificar com os binóculos quem se encontrava a bordo da embarcação pneumática de onde eram lançados os foguetes de sinalização quando a ‘Flor do Pico’ estava sobre o cardume de atum a cerca de 30 milhas de Santa Maria.

Ainda se notava alguma revolta no tom com que Mestre João Sousa explicava o episódio. De tal forma que, perante a questão sobre se esteve em algum momento em perigo, a sua resposta foi intempestiva. “Sim. Já viu estar de binóculos na cara e lançarem-lhe um ‘very-light’ de uma distância de cerca de 50 metros. Eu tive que me desviar…”, afirmou.

Os ‘very lights’ começaram a ser lançados da lancha pneumática para o fundo do mar. O objectivo era dispersar o cardume de atum, sem o conseguiram. Alguns ‘very lighst’ foram de encontro ao costado da traineira e, segundo o testemunho do mestre, um foi em sua direcção.

Mestre João Sousa foi para o rádio e repetiu por várias vezes um pedido de socorro que ecoou na escuridão e não obteve resposta.

Todo este ‘ataque’ é descrito, em pormenor, na participação contra desconhecidos que mestre João Sousa fez ontem na Capitania do Porto de Ponta Delgada. Questionado sobre se acreditava que se iria identificar os responsáveis, o mestre disse estar na posse de informações que vão levar à identificação da embarcação pneumática e dos responsáveis pelo lançamento dos foguetes. “Se não encontrarem os responsáveis, amanhã outros poderão fazer o mesmo contra outras traineiras que estejam na faina da pesca. E isso nunca mais para”, referiu.

As razões do ‘ataque’

No diálogo com os jornalistas da RTP/A e do ‘Correio dos Açores’, mestre João Sousa deixou escapar uma potencial razão para o ‘ataque’ de que foi alvo ao largo de Santa Maria. Disse, então, que a causa relaciona-se com o facto de os pescadores dos barcos de boca aberta pensarem que o peixe não se está a aproximar da costa por as traineiras estarem a concentrar o atum em manchas de onde têm retirado, nos últimos dias, várias toneladas.

Em anos anteriores, por esta altura, os pescadores dos barcos de boca aberta já estavam a pescar atum em quantidades significativas depois de identificarem pequenos cardumes junto à costa. E o facto é que tal situação não está a acontecer apesar de as traineiras estarem a capturar grandes quantidades de tunídeos em zonas para além das 20 milhas.

Um mestre de uma embarcação de boca aberta de um porto do Sul de São Miguel, credível entre os seus pares, deu uma explicação ao ‘Correio dos Açores’. “A verdade é que”, referiu, “os pequenos cardumes de atum vão nas correntes quentes à superfície da água em direcção às costas das ilhas e quando, no seu percurso, encontram uma das sete a oito manchas que, actualmente existem nos Açores, encostam-se e ficam lá”. E, assim, não chegam às zonas tradicionais de pesca de atum das embarcações de boca aberta.

A revolta nos pequenos portos de pesca de Santa Maria e do Sul de São Miguel adensam-se pelo facto de a maioria das traineiras que pescam em mancha junto às ilhas da Região serem propriedade de madeirenses.

É esta revolta que, pelas 14 horas, o subsecretário regional das Pescas, Marcelo Pamplona, vai procurar conter numa reunião marcada com carácter de urgência com os mestres dos barcos de boca aberta que, habitualmente, pescam atum a partir dos pequenos portos de pesca.

Como se pesca em mancha

Foi a traineira ‘Flor do Pico’ que conseguiu transformar um cardume de atum patudo ao largo de Santa Maria numa mancha em redor do barco utilizando isco vivo. Objectivamente, após identificarem o cardume pelo mergulho contínuo das gaivotas, o barco navega na sua direcção e começa a lançar isco vivo, mantendo-se praticamente à tona de água.

Logo o mestre da ‘Flor do Pico’ chamou outras três traineiras, propriedade de madeirenses, para trabalharem em conjunto com o objectivo de manterem a mancha de atum. São elas as traineiras ‘Mal Amanhado’, ‘Rei dos Açores’ e ‘Mestre Afonso’. Cada uma delas tem uma missão a cumprir e o atum pescado é dividido pelas quatro.

Nos termos do acordo, enquanto uma traineira está a pescar sobre a mancha de atum; uma segunda está ao isco; outra a caminho do porto para descarga; e a quarta está preparada pa­­ra entrar na mancha de atum quando a que lá está tenha de rumar ao porto. O objectivo é fazer com que o atum nunca perca o contacto com o casco do barco que acaba por funcionar como um ‘achado’ (a exemplo de toros de madeira onde são encontradas, por vezes, grandes quantidades de atum). A perícia está não só em manter o atum à superfície da água como na manobra que é necessário fazer quando se substitui o barco que está sobre a mancha.

Mas há manchas de atum, neste momento, ao largo das ilhas açorianas que são mantidas apenas por duas traineiras. Enquanto uma vai descarregar e apanhar isco, a outra não deixa o atum. Obviamente, pescam menos quantidades.

Será esta nova forma de pesca em mancha que, segundo os pescadores dos pequenos portos, faz com que os cardumes não cheguem às suas zonas tradicionais de pesca mais perto da costa.

Violência na pesca pode agudizar-se

O presidente da Federação de Pescas dos Açores, Liberato Fernandes, advertiu ontem para a possibilidade de agravamento dos “conflitos violentos” entre pescadores devido à escassez de recursos e consequente quebra de rendimentos da frota em actividade no arquipélago.

Na sequência do recente ataque com ‘very lights’ (engenhos utilizados na sinalização de socorro) a um atuneiro ao largo de Santa Maria (ler reportagem na página 13 desta edição), Liberato Fernandes admitiu que este clima de conflito pode agudizar-se, caso não sejam encontrados “mecanismos” que permitam compatibilizar os interesses dos pescadores de embarcações de maior e menor dimensão.

O capitão do Porto de Ponta Delgada, Rodrigues Gonçalves, disse à Lusa que a autoridade marítima vai avaliar a queixa, admitindo que poderá ser encaminhada para o Ministério Público se se confirmarem suspeitas de “crime de violência”.

Para o presidente da Federação de Pescas dos Açores, este caso revela a especial fragilidade das embarcações de menor dimensão – da frota local e costeira – face às de maior porte, num cenário competitivo em que se regista uma quebra de recursos.

Segundo dados que revelou à Lusa, operam actualmente nos mares do arquipélago cerca de 700 embarcações de pesca, 16 das quais atuneiros de maiores dimensões.

(por: João Paz, Correio dos Açores)

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